quarta-feira, 7 de março de 2012

HARLEY DAVIDSON 883 R – UMA MOTO VIBRANTE


Fernando R. F. de Lima
Perdoem-me o trocadilho, mas a HD 883 R é de fato uma moto que vibra e faz vibrar, com a pulsação do seu motor dois cilindros em V, a 45º, apenas parcialmente atenuada pelos coxins de borracha que o fixam no quadro de aço. Mas não é só isso: é também uma moto que empolga. Àqueles que acham que esta HD é pequena, devo lembrá-los que a cilindrada do motor é quase 900 cm³, pouco a menos que a de um motor 1.0. A Harley divulga apenas o torque, 7,2 kgm.f a 4500 RPM o que a esta rotação significaria 45 cv. Mas o motor vai mais, e atinge sua potência máxima de estimados 51 cv a 6 mil RPM. (eu apostaria em mais 10 cv pelo menos)

            Não é muito se pensarmos num motor moderno, mas o da Harley está amarrado pelos controles de poluentes e por algumas escolhas conservadoras, como o comando de válvulas voltado para uso em baixas rotações. Além disso, trata-se de um motor refrigerado a ar apenas, o que impõem limitações quanto ao aumento da potência específica e, ainda por cima, suas válvulas localizam-se no bloco. Por outro lado, em matéria de motor de motos, este propulsor é certamente o que há de mais robusto no mercado, projetado para durar muitos milhares de quilômetros antes da necessidade de uma troca de componentes.
            Deve-se lembrar ainda que, se 51 cv não parecem muito, o peso em ordem de marcha da moto é de 260 kg, o que resulta em 5kg/cv. Mesmo acrescentando um piloto pesadão como eu, a relação peso/potência ainda é 7 kg/cv (o que é o mesmo que um Ranger Rover Evoque).
A grande vantagem do seu motor e das características de seu quadro, é que a 883 r tem acelerações e retomadas muito céleres. Já a partir dos 50 km/h é possível engatar 5ª marcha e seguir em frente sem se preocupar com o câmbio. A 100 km/h é absolutamente desnecessário reduzir marcha para ultrapassar, sendo que a terceira pode ser esticada até os 120 km/h sem problema se você quiser retomar realmente rápido. Isso significa uma elasticidade no motor que as tetracilíndricas de 600 cm³ não tem. E mais, a HD não cobra mais por esta característica.
Uma vantagem da baixa potência específica deste motor é o consumo, muito moderado para o peso que desloca e a facilidade com que desloca toda esta massa: tenho feito médias ao redor de 19 km/l, muito próximas aos 20 km/l da minha finada Falcon 400cm³ 2007, que além de tudo era monocilíndrica.
            Mas nem só de motor é feita uma Harley; tem também o acabamento: é difícil achar peças de plástico na moto, com exceção das capas dos cabos e os adesivos que recobrem o tanque. Do velocímetro aos para-lamas, passando pelos suportes e capas laterais, tudo é de aço, o que explica o peso avantajado em relação, por exemplo, a uma Honda Shadow. Aliás, o nome parece apropriado porque no fundo ela não passa de uma sombra da HD, com seu motor refrigerado a líquido, de três válvulas por cilindro e duas velas. Tanta tecnologia para, no final, gerar menos potência que a 883. No meu mundo isto tem um nome: desperdício.
            Em relação ao conforto, há uma coisa a destacar que normalmente as pessoas não compreendem. As suspensões da Harley adotam um conceito bem simples: são mais simples, por exemplo, que as da Fazer 250 ou da Falcon, que eram do tipo link, com um único amortecedor. Também tem um curso mais reduzido que o destas duas motos, sobretudo na traseira. Por fim, a 883 concentra mais peso atrás que estas duas, em que se dirige mais apoiado no guidão e pedaleiras.
Obviamente, como é uma moto pesada, ela está mais sujeita a batidas de fim de curso do que as motos menores, ou então do que as “big trail” e “nakeds” da vida. Mas não se pode dizer que a suspensão não é confortável, inclusive porque é mais macia que a da maioria das motos em que andei, apesar de ter menor curso. Isto significa que se você passar a 50 km/h por uma lombada, na HD você certamente vai sentir uma pancada seca de fim de curso, o que não vai acontecer numa Ténéré 660 ou numa Hornet, porque a primeira irá absorver por inteira a passagem da lombada e a segunda irá decolar por sobre ela. Mas se você passar a 30km/h, a Harley será muito mais macia que a Hornet, e até mais benevolente com seu traseiro que uma Ténéré. Tudo isso com muito estilo, já que além de todas as suas qualidades, a HD 883 R ainda é uma moto bonita de se ver com sua mescla de pretos e cromados e seu tanque minimalista, sem rival no mercado.
Falei sobre como ela anda, mas, como ela para? Seus freios são tão potentes quanto o motor. Os dois discos dianteiros em conjunto com o disco traseiro atuam de forma suave e progressiva na hora de estancar os 360 kg da moto. Além disso, é possível acioná-los suavemente, sem sustos, utilizando apenas dois dedos no manete.
E os defeitos? Eu achei a embreagem da moto pesada e ainda não estou forte o suficiente para não sentir mais seu acionamento. Obviamente, isto é uma questão de costume e em duas ou três semanas já terei me esquecido deste detalhe. O tanque é pequeno em vista do consumo, durando menos do que 200 km, caso você não esteja disposto a empurrar 260 kg ladeira acima à procura de um posto. As pedaleiras, apesar de nos adaptarmos a elas, são muito grandes, desajeitadas e feias. Claro, todo mundo diz que elas devem ser trocadas, mas neste caso a Harley já deveria mandar a moto de fábrica sem pedaleiras, com a opção de o cliente escolher algo menos porcaria do que a que eles colocaram ali.
Nas curvas para a direita, o escape encosta com certa facilidade no chão. Dizem que esta característica é menos acentuada na 883 que em outras motos do gênero, mas nas primeiras vezes que isso acontece leva-se um susto. Parece que algo importante (e caro) está sendo destruído no asfalto. Na minha Fazer 250, eu raspei a pedaleira direita no chão apenas duas vezes, e nos mesmos lugares em que raspei as da HD. Portanto, o problema não é só da moto, mas também da via. Mas sua baixa altura do solo inspira conservadorismo nas curvas.


            Em relação ao preço, sinceramente acho que a Sportster 883 R está uma pechincha pelo que oferece. Leva-se muito mais do que uma Shadow ou uma Dragstar de mesmo ano oferecem (no mercado de usadas) e custa menos que a Shadow ou a Midnightstar quando 0km.  Além disso, o seguro da minha saiu por menos de R$ 1500,00, praticamente o mesmo preço que o do meu carro. Sinceramente, não acho que vale a pena cogitar uma das japonesas quando se tem a possibilidade de comprar a HD, que apesar de sua mecânica conservadora, é o estado da arte em matéria de moto feita para durar. Além de mais um detalhe: fica linda na minha garagem!